terça-feira, agosto 29, 2006

124 - Quem foi Padre Doutor?

por Raul Quevedo


Eis uma pergunta que pode soar enigmática para a maioria dos leitores deste pequeno comentário. É possível que muitos haverão de considerar trate de figura de folclore, nascida do imaginário popular, como tantas outras lendas que foram se formando ao longo dos séculos e que se narram como reais. Porém, no caso do Padre Doutor, ele existiu realmente. O vulto histórico cuja lembrança leva o vulgo a localizar no curso de água que se junta ao arroio Fragata, em Pelotas, foi sujeito em carne, osso, ação e pensamento. Foi cidadão prestimoso em seu tempo. Deixou um legado de ações e cultura pastoral cristã que o projetou à posteridade como um meteoro que tanto mais brilha quanto mais distante se encontra do próprio foco que projeta. E mesmo com toda essa expressão histórica, estava anônimo, quase esquecido, sobrevivendo tão-somente na memória do curso de água. E mais recentemente, em vista do desenvolvimento demográfico da região, virou topônimo de município, com a criação do Arroio do Padre. Seu nome, Pedro Pereira Fernandes de Mesquita. Quem retira da bruma do esquecimento esse personagem quase mítico, é um religioso contemporâneo, membro da Academia Pelotense de Letras, que ocupa a cadeira nº 15, cujo patrono é o próprio biografado. Irmão Jacob José Parmagnani é seu nome. Professor, da Congregação dos Irmãos Lassalistas, já autor de vários outros livros versando sobre personagens da igreja. Tão forte, tão real lhe sôo sempre o nome Padre Doutor, que ao tomar posse na Academia, assumiu compromisso de pesquisar a vida e obra do padre Pedro Pereira Fernandes de Mesquita. E para comprovar a admiração ao personagem, titulou o livro Padre Doutor. Parmagnani narra a história em duas partes. Na primeira, traça a biografia de Pedro Pereira Fernandes de Mesquita. Na segunda parte reproduz o manuscrito escrito pelo biografado, onde narra a tomada definitiva do forte de Colônia do Santíssimo Sacramento pelos espanhóis, sob o comando de dom Pedro de Cevallos, em 1777. Tão importante quando o conhecimento que se terá da vida e obra de Pedro Pereira Fernandes de Mesquita, ao se ler o livro de Parmagnani, é saber detalhes de familiares do mítico Padre Doutor, irmãos, sobrinhos, cunhados. Dentre os sobrinhos, três nomes que alcançaram lugar de relevo no altar da história.Um deles, Hipólito José da Costa, é o patrono do jornalismo brasileiro. Espécie de cidadão do mundo, após sua formação na Universidade de Coimbra permaneceu na Europa onde, além de outros sucessos, fundou na Inglaterra o primeiro jornal brasileiro, o Correio Braziliense. Outro, o primogênito da família Félix da Costa Furtado de Mendonça-Ana Josefa Pereira Furtado de Mendonça. Este, como o tio, licenciado em leis canônicas, foi o fundador da igreja em Pelotas. Ficou na história pelo nome simplificado de Padre Felício. E o terceiro, este já nascido no Rio Grande, José Saturnino, como os dois outros, formado em Coimbra, foi deputado junto ao parlamento da corte, em Lisboa, e após a Independência, senador durante o Primeiro Império e governador da Província do Mato Grosso.

Padre Doutor - A vida de Pedro Pereira Fernandes de Mesquita - 158 páginas, ilustrado, foi editado pela Editora La Salle Canoas, RS.

Fonte: Diário Popular
Pelotas, RS, Quinta, 06.06.2002
http://www.diariopopular.com.br/06_06_02/artigo.html

Pequenas correções:
1a - O Arroio Padre Doutor não se junta com o Arroio Fragata. O Arroio Fragata é continuação do Arroio Moreira.
2a - Arroio do Padre não recebeu este nome por causa do Padre Doutor, e sim por um outro Padre.

123 - Minha posse na Academia Pelotense de Letras

por Zenia de Leon

No dia 11 de agosto, tomei posse na Academia Pelotense de Letras. Reservo, pois, este espaço para lembrar a vida e a obra de meu patrono Hipólito José da Costa.“Agradeço à Academia Pelotense de Letras a escolha de meu nome para ocupar a Cadeira Número 1 desta Academia, cujo patrono é Hipólito José da Costa, que é, ao mesmo tempo, Patrono da Imprensa Brasileira e da 17º Cadeira da Academia Brasileira de Letras. Hipólito José da Costa nasceu Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, em Colônia de Sacramento, atual República do Uruguai, no dia 13 de agosto de 1774. Na época, Colônia de Sacramento era domínio da Coroa Portuguesa. Hipólito José era filho de família abastada do Rio de Janeiro. Devido à instabilidade política da região, ainda criança migrou com sua família para ***Pelotas, onde passou a sua adolescência. Após, mudou-se para Porto Alegre com o objetivo de estudar em cursos preparatórios para sua formação em Direito e Filosofia na Universidade de Coimbra, que concluiu em 1798. Recém-formado, foi enviado pela Coroa Portuguesa aos Estados Unidos, com a tarefa de conhecer as novas técnicas industriais aplicadas pelos norte-americanos e levá-las para Portugal. Viveu nos Estados Unidos por dois anos, tendo tido contato com as idéias maçônicas, provenientes da França e da Inglaterra. Ao retornar para o reino, em 1801 foi enviado pela Coroa para a Inglaterra, onde veio a se tornar, mais tarde, grão-mestre da Maçonaria inglesa. De volta ao reino, foi detido por três anos, acusado pela inquisição da Igreja Católica de disseminar a maçonaria na Europa. Em 1805, radicou-se na Espanha, mudando-se posteriormente para a Inglaterra, onde se exilou. Em Londres, passou a editar aquele que é considerado o primeiro jornal brasileiro: o Correio Braziliense ou Armazém Literário, o qual circulou de 1808 a 1823, tendo tido 29 volumes editados, no total. Com esse veículo, passou a defender as idéias liberais, entre as quais as de emancipação colonial, dando ampla cobertura à revolta pernambucana de 1817 e aos acontecimentos de 1821 e de 1822 que conduziriam à Independência do Brasil. Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça ou Hipólito José da Costa faleceu em 1823, sem chegar a saber que fora nomeado cônsul do Império do Brasil em Londres e que suas idéias e atitudes seriam sempre lembradas como as raízes da Independência do Brasil. Seu legado, porém, transcende à política, à literatura e à imprensa, chegando à economia e a questões sociais. Analisando-se, por exemplo, a influência de seus escritos e de sua obra jornalística no pensamento econômico brasileiro, pode-se destacar temas relativos à abertura comercial de 1808, ao tratado comercial de 1810 e a outras questões correlatas, como as políticas liberal ou protecionista e os problemas referentes à escravidão e à colonização. E ele escreveu: “O primeiro dever do homem em sociedade é de ser útil aos membros dela; e cada um deve, segundo as suas forças físicas ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos ou talentos que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou”. Com toda a certeza, Hipólito José da Costa soube fazer isto!

*** Estância Sant´ana, Capão do Leão.

Fonte: Diário Popular
Pelotas, RS, Domingo, 13.08.2006 http://www.diariopopular.com.br/13_08_06/thais_russomano.html