quarta-feira, setembro 06, 2006

135 - Mister Farquhar e os molhes da barra

por Mário Osório Magalhães
É provável que o leitor não saiba: antes que tivesse início o episódio - ou epopéia? - da estrada de ferro Madeira-Mamoré, mister Percival Farquhar (personagem da minissérie Mad Maria) andou se envolvendo com a construção dos molhes da barra do Rio Grande - que Barbosa Lessa considerava "em tudo semelhante à construção de uma das sete maravilhas do Mundo Antigo: a grande pirâmide de Quéops. Com a diferença de que os blocos da pirâmide haviam sido ajustados a céu aberto e, aqui, tiveram que ser ajustados nas profundezas do mais tempestuoso mar da América Latina..."Foi assim: pouco antes da sua morte súbita, em 24 de outubro de 1903, Júlio de Castilhos conseguira desengavetar um projeto do engenheiro Honório Bicalho, encomendado ainda no tempo do Império, e ao qual haviam sido acrescentados subsídios técnicos do holandês Peter Caland. Borges de Medeiros, como herdeiro fiel da política castilhista, ao assumir o governo gaúcho pela segunda vez, solicitou à União que lhe transferisse a responsabilidade pelos portos do estado, ao mesmo tempo em que pleiteava adiantamentos federais em torno de três mil contos de réis - que, conforme orçamentos da proposta Bicalho/Caland, seria a quantia mínima anual para iniciar os trabalhos de dragagem da projetada barra. Negaram-lhe ambas as concessões.Mas em 1904 realizou-se nos Estados Unidos a Exposição Internacional de Saint Louis. Borges autorizou o engenheiro Eugênio Dahne a representá-lo, lá, em possível negociação internacional para a construção dos molhes. E a idéia despertou, de fato, o interesse do engenheiro Lawrence Corthel, que participara da fixação da barra do Mississipi. Só lhe ficaram dúvidas sobre a viabilidade econômica do empreendimento.E é aí que entra nessa história o Farquhar Syndicate. Acompanhado pelo próprio Percival Farquhar, mister Corthel vem ao Brasil para avaliar de perto as condições locais. Retorna aos Estados Unidos e elabora um projeto, que apresenta ao Ministério da Viação. No dia 18 de abril de 1906, é assinado um decreto autorizando o início das obras da barra e do porto de Rio Grande e em 12 de setembro, independentemente de concorrência pública, um contrato entre o governo brasileiro e o grupo Corthel/Farquhar, assegurando a este a concessão e exploração do porto até o ano de 1973. Mais: pela cláusula 64, o grupo tinha direito de preferência na realização de obras congêneres em qualquer ponto da bacia da Lagoa dos Patos, porém sem obrigação alguma de realizá-las.Os termos dessa cláusula acabariam por causar sério conflito entre o grupo Corthel/Farquhar e o governo de Carlos Barbosa Gonçalves, sucessor de Borges em 1907. Anunciou o novo presidente do Rio Grande do Sul que construiria modernos portos, substituindo os velhos trapiches, em Porto Alegre e Pelotas, além de melhoramentos nos rios Taquari e Jacuí. Os concessionários naturalmente reagiram, alegando os direitos do contrato e acrescentando que tal medida "reduziria o valor do porto de Rio Grande à metade". Diante do início das obras na capital do estado, tiveram ganho de causa: um juiz federal condenou o governo da União, o governo do estado e a empresa responsável pelos melhoramentos do porto de Porto Alegre ao pagamento de uma considerável indenização, pelo fato de não haverem cumprido a cláusula 64.Nesse meio tempo, mister Farquhar, na Grã-Bretanha, esbarrava em dificuldades para integralizar o capital da empresa. Uma crise no Império Russo, ameaçando de colapso a economia mundial, fez com que o Banco da Inglaterra iniciasse uma fase de arrocho na concessão de créditos. Percival Farquhar, então, apelou ao mercado financeiro de Paris, efetivando a Compagnie Française du Porto du Rio Grande do Sul, substabelecendo-a na concessão de Corthel. Nos primeiros meses de 1915 foram inaugurados, praticamente prontos, o molhe leste (de São José do Norte) e o molhe oeste (de Rio Grande), ambos construídos com enormes blocos de pedra conduzidos de Monte Bonito e do Capão do Leão (então pertencente a Pelotas) pela empresa que ficou sendo chamada, aqui, de Companhia Francesa. Finalmente, em 9 de março de 1918 era assinado o Convênio de Encampação, através do qual o estado do Rio Grande do Sul, por seu governador - que era novamente Borges de Medeiros - assumia a responsabilidade de conclusão das obras e de conservação da barra. Nesse momento Percival Farquhar ainda se encontrava à frente da Compagnie Française. Mas, em conseqüência da Primeira Guerra Mundial, já completamente falido.
Fonte: Diário Popular - Pelotas, RS, Domingo, 20.03.2005

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