quarta-feira, agosto 09, 2006

111 - O marco esquecido de Santo Ildefonso


por Álvaro Guimarães

A antiga Estrada Geral, hoje estrada da Guarda Velha, é um caminho de chão batido que corta o interior do município de Pinheiro Machado, na Região Sul do estado. À beira do caminho no distrito de Torrinhas, um imponente monumento de pedra se ergue em meio a coxilhas e campos pálidos. Poucos daqueles que passam por ali sabem que o marco em forma de "H" delimita o local exato por onde, no século 18, passava a linha imaginária do Tratado de Santo Ildefonso, que dividiu os domínios dos reinos de Portugal e Espanha no sul da América do Sul.
Erguido entre 1964 e 1965, onde antes havia o cemitério da localidade de Guarda Velha, o monumento mantém os restos mortais dos antigos povoadores da fronteira esquecida e é dedicado a eles. Resgatar a história do marco e sua importância tem sido uma das empreitadas a qual se dedica o agrônomo e pesquisador Artêmio Vaz Coelho, de 56 anos. "O pessoal nem sabe a finalidade desse monumento, nem tampouco procura saber", critica.Coelho explica que as origens do monumento remontam a 1791, quando o então chefe da província, Rafael Pinto Bandeira transferiu seu acampamento militar para aquelas imediações em obediência ao Tratado de Santo Ildefonso, firmado em 1º de outubro de 1777 entre Dona Maria I, rainha de Portugal e Carlos III, rei da Espanha. O objetivo do tratado foi acabar, de uma vez por todas com as discórdias entre as duas nações pela posse das terras no sul do continente.
De acordo com o pesquisador, o que poucas pessoas sabem é que na hora de acatar as ordem da rainha Maria I de Portugal, o lendário desbravador não foi exatamente fiel. "As ordens eram para ele acampar às margens do rio Piratini, mas ele acampou no arroio Grande, assim empurrou a fronteira uns cem quilômetros para dentro das terras espanholas", defende. O pesquisador revela, ainda que ao fazer isso Pinto Bandeira conseguiu retirar a estância do Pavão, de sua propriedade, de dentro do território espanhol. As pesquisas de Coelho foram feitas a pedido de um CTG de Pinheiro Machado, que leva o nome de Pinto Bandeira, mas podem acabar se transformando em artigos ou, quem sabe um livro. Enquanto isso não ocorre o agrônomo aposta em palestras dadas nas escolas da cidade para divulgar não apenas este assunto, mas também o massacre do Cerro dos Porongos ocorrido durante a Revolução Farroupilha e outras tantas histórias do município.

Diário Popular, 25 de setembro de 2005

http://www.diariopopular.com.br/25_09_05/ag230904.html

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