terça-feira, agosto 08, 2006

109 - Recepção a Bilac no Capão do Leão




por Heloisa Assumpção Nascimento.

Às vezes, por acaso, nos chegam ás mãos livros que muito significam para a poesia brasileira, sugerindo acontecimentos do passado. Assim aconteceu com TARDE, de Olavo Bilac. Ao visitar Pelotas o consagrado poeta, quis a cidade preceder-se de uma comitiva, para recebê-lo no Capão do Leão, então parte do município de Pelotas e que foi a porta pela qual o inesquecível poeta penetrou em nossa terra.

Corria o mês de novembro. Os campos cobriam-se de floresinhas amarelas. O ar embalsamava-se de perfumes. A folhagem das árvores apresentava-se verde e lustrosa. Era primavera, a festa de gala da natureza no Sul, adornada para saudar o criador de beleza que, quase com espírito franciscano, ouvira estrelas.

Engalanara-se o Capão do Leão para receber Bilac. No prédio da Estação Férrea e na mais alta pedreira, pertencente a José Vieira Mendes, tremulava, glorioso, o pavilhão nacional. A comitiva pelotense vinha em trem especial composto pela locomotiva 277 e carro de primeira classe. Faziam parte dela o Conselho e as Comissões Auxiliares do Tiro 31, Drs. Miguel de Souza Soares e Fernando Osório, Tenentes Netuno Brum da Silveira e Manoel Cruz e atiradores Domingos Stanish e Bento Cunha. Integraram as comissões enviadas pela Guarda Nacional os Capitães J. Couto, José Maria Barcelos e o Tenente João Paranhos da Costa. Arthur Hameister representava o Intendente de Pelotas.

E não faltava a fina flor da imprensa local: Gastãi Rohnett pela Opinião Pública, Carlos Rodrigues de Souza pelo Diário Popular, Joaquim de Souza Gonçalves pelo O Rebate.

Naquela época, as mensageiras tinham grande importância na cidade, não só pela sua utilidade como pela excelente organização. Assim, a Mensageira David, de propriedade de Décio Lobo, enviava, no mesmo trem, bem fardado mensageiro de número 16, com perfumado ramalhete de flores, do qual se lia o cartão com os dizeres: " A Mensageira David se associa aos júbilos com que a Princesa do Sul acolhe, hoje, prasenteira e por entre festas, o Prícipe dos Poetas. E, depois, tem a honra insigne de saudar, desejando boas vindas, a Olavo Bilac, o excelso burilador do verso. Salve."

A dedicatória acima talvez pareça exagerada, redundante, à gente de agora. Na época, foi a expressão da cortesia e admiração de um povo bem mais culto.

O trem especial com a comitiva levou apenas vinte e dois minutos para chegar à gare do Capão do Leão, onde uma pequena multidão aguardava a chegada do poeta, o que aconteceu pouco depois das 17 horas, pelo trem de Bagé. Ao deixá-lo Bilac foi saudado pelo repórter Rohnett, da Opinião Pública que, em nome de um grupo de moças, lhe ofertou um ramo de flores.

Sucederam-se os pronunciamentos dos alunos da 3 aula estadual, presentes com sua professora, D. Joaquina dos Anjos Petricci. Falaram Isabel Itemburgo e Diva Peres, esta sobre o Hino Nacional e Alfredo Traversi, numa entusiástica alocução à bandeira da pátria.

Recebido no restaurante PRIMEIRO DE MARÇO, do Sr. João Norberto da Cunha, ali lhe foi oferecida mesa de doces. Em brilhante improviso, bridou-o o médico, Dr. Augusto Silveira.

Em seguida, partiu Bilac no trem especial para Pelotas, que esperava engalanada. Precedendo à conferência, que pronunciou na Pricesa do Sul, saudou-o Maciel Moreira, com este conceito lapidar, prenúncio do que vale ilustre representaria na poesia brasileira - "Quando Bilac se calar para a vida e o seu corpo descer à terra, mergulhada que fosse a sua alegria no grande oceano da eternidade, a sua lira mágica, como se ainda fosse tangida pelas mãos do poeta, seria ouvida pelo Brasil comovido."
E assim deveria ser.
[NASCIMENTO 19871013] NASCIMENTO, Heloisa Assumpção. Nossa Cidade Era Assim: Recepção a Bilac. Pelotas: Diário Popular. 13/10/1987. Caderno Social Pag. 13.


Olavo Bilac esteve em Pelotas em 1916.


Olavo Bilac no Wikipédia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_Bilac


Imagem tirada de [OSORIO 1922] OSÓRIO, Fernando. A Cidade de Pelotas: Corpo, Coração e Razão. Pelotas: Diário Popular. 1922. 253p

2 comentários:

Arthur Victoria Silva disse...

“Convertido em propagandista do escotismo, Bilac, o poeta parnasiano, esteve em Pelotas de 1 a 6 de novembro 1916.” MAGALHÃES, Mário Osório. História e Tradições da Cidade de Pelotas. 2ed. Instituto Estadual do Livro/Universidade de Caxias do Sul. 1981. pag. 25

O que é Parnasiano?

Arthur Victoria Silva disse...

par.na.si.a.no. 2. Diz-se dos sectários de umacorrente poética que procura especialmente a delicadeza e a perfeição da forma. Michaelis - Moderno Dicionário da Lingua Portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. pag. 1558