sexta-feira, junho 02, 2006

85 - Carl Seidler no Capão do Leão

No livro “Dez Anos no Brasil” do alemão Carl Seidler, ex-oficial do Império Brasileiro, narra sua passagem pelo pais e uma estadia no Capão do Leão (Capítulo XII com o título “A Venda de Mulados em Capão do Leão”) por volta de 1828 provando que o nome já existia nesta época.

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A noite , que desce tão repentinamente nos países tropicas, tanto que não é precedida de crepúsculo, supreendeu-me em Capão do Leão, onde tive de resolver-me a pernoitar na única hospedaria existente. O dono, um mulato alto, forte, em quem pela cara cheia e ventre arredondado se via claramente o bom humor e íntima satisfação, aproximou-se de mim amavelmente e, como já me conhecesse de outrora, a minha chegada lhe pareceu benvinda, pois logo me prometeu hospedar-me o melhor que pudesse e gratuitamente. Semelhante liberalidade até então eu ainda não topara em nenhuma hospedaria, nem alemã nem brasileira, e justamente por causa dessa última condiçãoeu teria prosseguido viagem, não estivesse adiantada a noite. Segui, portantoao bondoso dono da casa, entrando em sua habitação baixa – mas como fiquei desapontado ao ver o seu único quarto de hóspedes! Um fogo aceso no meio do quarto espalhava uma fumarada negra que ameaçava de asfixia os presentes. Em torno estavam de dez a doze indivíduos a se ocuparem diligentemente em assar pedaços de carne de boi ou de vaca espetados em compridas varas, que sem demora devoravam com uma voracidade selvagem, em estado ainda meio cru. A dona da cabana, com seus filhos de ambos os sexos, descalços, vestidos com uma capa de chita, que fazia ao mesmo tempo as vezes de camisa, saia e blusa assentada à porta, mantida aberta para que houvesse a necessária corrente de ar; todos os mais, na maior parte negros e mulatos tinham tomado lugar perto da gigantesca dona da casa, Não havia uma cadeira no quarto; caveiras de cavalos faziam suas vezes. A sorrir, olharam-me de esgue-lha os nobres hóspedes dessa suja taverna quando com olhares algo espantados me pus a medir o quarto cheio de fumaça e os seus ocupantes. “Sente-se, seu tenente: aqui não há cerimônias!”, declarou-me um curpulento mulato, empurrando para perto de mim, junto ao fogo, uma caveira de cavalo ou de boi. No meio de lobos é necessário ladrar com eles, pensei comigo, e sem pestenejar aceitei o lugar que me indicavam. Daí podia olhar com vagas os convivas e depois que examinei a referida dona da casa, uma mulata bastante corpulenta, bem fornida de carnes, adiante e atrás, olhar felino, encarei o meu vizinho à mão direita, ao clarão da fogueira. E, na verdade, não havia mister ser um Laváter ou um Hogarth para ter pela fisionomia desse homem a idéia de que mais de um europeu já havia de ter vertido seu sangue naquelas rudes mãos, sempre inquietas.
Era um sujeito alto, esbelto, cruza de mulato com negro, como denunciava sua cor amarelo alaranjada; uma capa espanhola de pano grosseiro, castanho, arregaçada para trás, encobria a cara chata, traiçoeira, até acima do nariz; um chapelão preto, desabado para cima da testa angulosa arqueada, mal deixava adivinhar os olhos negros, sombriamente reluzentes; do cano da bota direita fulgia o cabo de larga faca, bem afiada; à ilharga pendia-lhe uma espada, que lembrava os velhos tempos de cavalaria de Rolando e da Távola Redonda; e no cinturão vermelho, de lã, viam-se duas pistolas que toda vez que ele afastava a capa espanhola para comer apareciam mais do que necessário.
À minha esquerda estava um outro sujeito que, embora muito menor e mais franzino, não cedia o passo ao primeiro quanto a traços fisionômicos horripilantes.
Naturalmente nesse meio me senti inquieto. Olhava ora à direita, ora à esquerda; depois me afastei um pouco do fogo, por mais que me agradasse o seu calor, e sem querer experimentei diversas vezes se a minha espada, enferrujada de tanta chuva, estaria bastante frouxa na bainha. Firmemente resolvido a vender caro a vida e resignado com o que de pior pudesse sucedre, não perdia um minuto de vista os meus vizinhos em seus movimentos dúbios.
Provavelmente notaram a minha desconfiança, pois que unânimes me afirmaram, com um ar de sinceridade que baniu todas as dúvidas de meu coração, que lhes era hóspede muito benvindo, que eram grandes admiradores das tropas estrangeiras e que há mais de oito dias haviam adotado o princípio de não pôr mais a secar ao ar nenhuma pele branca. Essa manifestação franca desanuviou o meu espírito envolto em escuras fantasias; só o meu coração continuava a martelar. Finalmente, reapareceu o dono da casa e me convidou humilimamente, com as mais detestáveis atitudes de macaco enamorado, a tomar parte na frugal refeição; e mais tarde, como prova especial de sua grande amizade, deu-me um cigarro de papel que fumei até ficar enjoado.
Para poder quanto antes subtrair-me a esse bando sul americano de ciganos, manifestei-me extremamente cansado e então indicaram-me num canto do quarto uma cama de madeira com couro de vaca e, conquanto ainda não me fiasse da companhia, a forte cavalgada do dia e a asfixiante fumaça do quarto me haviam fatigado tanto que sem demora caí no domínio dos sonhos.
Ao acordar ainda vi reunida a nobre companhia; o jogo de cartas os mantivera despertos toda a noite. Esses homens, quase todos maltrapilhos, que nem tinham sal para sua carne magra, muito menos pão, agora punham em cada cartada dobrões espanhóis e mancheias de prata; e com estupefação observei que alguns deles puxavam debaixo de seus andrajos recheadas bolsas de couro de onça e as despejavam no chão, para tentar a fortuna a duplicar ou triplicar seu capítal na hora decusiva. Cada qual ao mesmo tempotinha a faca a seu lado, para abater incontinente o adversário em caso de dissídio. É por esta forma que o jogo adquire efeito dramático.
Logo que nasceu o dia encilhei o cavalo, agradeci com uma piastra o negrinho que me servira e depressa ganhei distância.
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Parte do texto foi reproduzida no livro “O Negro e Descendentes na Sociedade do Rio Grande do Sul (1635-1975)” do Coronel Cláudio Moreira Bento (“A hospedaria em Capão do Leão” pags 143-144) onde descreve o seguinte comentário:

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Seidler foi injusto, hospedou-se de graça, não foi molestado e nem roubado. Foi alvo de hospitalidade gaúcha na melhor forma possível e grátis, conforme prometeu-lhe seu hospedeiro.
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Fonte:
[SEIDLER 1980] SEIDLER, Carl. Dez Anos no Brasil. Belo Horizonte: Ed. Itatiais; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1980. 336 p.
[BENTO 1976] BENTO, Cláudio Moreira. O Negro e Descendentes da Sociedade do Rio Grande do Sul (1635-1975). Porto Alegre: Grafosul, Instituto Estadual do Livro, 1976. 288 p.

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