segunda-feira, maio 08, 2006

77 - Recordações de Infância

Meu tio Flávio Moreira dos Santos, em junho de 2004 escreveu um texto com o título “Recordações de Infância” sobre os anos 40 no Capão do Leão que diz o seguinte:

O casario era ladeado por duas elevações do terreno, uma formada por coxilhas de campos muito verde, com alguns capões que não mais abrigavam o leão baio, exterminados pelas caçadas. Do outro lado ficava o cerro de pedreira, onde uma enorme pedra dominava altaneira toda paisagem. Era o símbolo do lugar – a Pedra da Bandeira.
No início da década de 1940, Capão do Leão ainda era uma pequena vila. O casario se estendia ao longo de uma estrada de chão. Os raros automóveis que passavam não molestavam a garotada que despreocupadamente construía casinhas de areia em plena estrada.
Não havia eletricidade, o abastecimento de água era feito por poços. A rotina da comunidade era moldada por essas carências. As casas eram iluminadas por lampiões a querosene e os poucos rádios existentes eram ligados a baterias. Um receptor receptor bastante rústico, chamado galena, era uma alternativa. Esse equipamento não necessitava de eletricidade, bastando uma antena, um fio terra e um par de fones de ouvido.
Nas manhãs de inverno a geada cobria os campos ao redor, então eu que tinha oito anos e meu irmão de sete, aproveitávamos para correr descalços pelo lençol branco que enregelava nossos pés.
Mas era no verão que a vila mostrava toda sua beleza. No ar sentia-se o perfume adocicado das árvores frutíferas que floresciam nas chácaras.
Era tempo de construirmos plataformas de taboas entre os galhos de uma árvore e ali ficávamos ouvindo os sons da mata, observando os pássaros com plumagens colorida, ou simplesmente deitados olhando o movimento das nuvens.
As caminhadas pelos campos eram muito boas, mas as vezes nos deparávamos com um touro bravo. Nessa hora o que importava era quem corria mais até a cerca mais próxima.
Mas de tudo o que mais gostávamos era dos banhos no Paço, um lago com uma pequena praia numa curva do riacho onde hoje fica a ponte de acesso a cidade.
Nos domingos, o grande acontecimento era a chegada do trem que vinha de Pelotas ao cair da tarde. A locomotiva parecia uma chaleira de ferro, lançando no ar uma cortina de fumaça. As pessoas que iam a estação colocavam suas melhores roupas e ficavam desfilando na plataforma. Quando a noite era enluarada, moças e rapazes iam passear pela estrada, enquanto a luz bruxuleante dos lampeões transparecia nas janelas das casas.
Não sei o motivo, mas naquele tempo, os jogos e as brincadeiras, tinham épocas certas: havia o tempo das brincadeiras de polícia-ladrão, jogar bolinha de gude ou soltar pandorga. Essas épocas começavam e terminavam sem que nos déssemos conta. As atrações maiores ficavam por conta da chegada de algum circo ou das apresentações do mágico Aci Portela que encantava as crianças com seus bonecos.

Tio Flávio, MUITO OBRIGADO!

2 comentários:

Eder H. da Rosa disse...

"...Quando a noite era enluarada, moças e rapazes iam passear pela estrada, enquanto a luz bruxuleante dos lampeões transparecia nas janelas das casas..."

Parabens "tio Flavio"!
Que delicadeza:Obrigado por trazer a os meus olhos coisas que eu nunca poderia imaginar, porque ao ler a suas "memórias" pude "ver" com tal fidelidade sua ao escrever, coisas que eu nunca poderia imaginar;
E a fraze sua que coloquei acima são coisas que nunca ví,e nunca mais verei a não se por tão belas palavras que ficam escritas para o sorver dos que tem sede de história, para o sorver dos que nunca puderam ver, mas hoje vêem atravez das palavras dos que viram!

muito Obrigado!


Éder H.Rosa

Arthur Victoria Silva disse...

Acy Portella... http://acyportella.blogspot.com.br/